Reflexão sobre fé e prudência
A fé caminha paralelamente a
prudência? Elas estão em sentidos opostos ou elas podem atuar em circunstâncias
adversas simultaneamente? Isto é possível?
Introdução
Após o profeta João batizar
Jesus no Jordão, o mesmo Espírito que desceu sobre ele nas margens do rio (Mt.
3.16), o conduziu ao deserto para ser tentado pelo diabo (Mt. 4.1). Jesus
jejuou por quarenta dias e quarenta noites e logo teve fome (Mt. 4.2); em
seguida o tentador, aproveitando de sua fragilidade física, se aproximou com o
intuito de incitá-lo ao erro. Três tentativas foram feitas, contudo sem
sucesso, pois o Mestre tinha uma missão e era fiel e leal ao projeto savífico de
Deus a todos (as) aqueles (as) que creem em Seu Nome. No entanto, um dos seus ensaios
o diabo o leva ao pináculo do templo e diz: “...Se
você é o Filho de Deus, jogue-se daqui, porque está escrito: Aos seus anjos ele
dará ordens a seu respeito. E eles o sustentarão nas suas mãos, para que você não
tropece em alguma pedra” (Mt. 4.5-6), fazendo citação ao texto de Sl.
91.11-12. Jesus o responde de imediato dizendo: “...Também está escrito: Não ponha à prova o Senhor, seu Deus” (Mt.
4.7), fazendo alusão a Dt. 6.16. A pergunta que fica é: Jesus não tinha fé para
se lançar do pináculo do templo? A fé do Filho de Deus foi invalidada por não
se arremessar ao chão? Já que sendo ele o próprio Deus não teria o poder de tal
feito? Ou será que nesta narrativa, Jesus quer nos instruir que a prudência também
é um elemento a ser considerado e vivido por cada um (a) de nós? A prudência aplicada
por Jesus anulou ou reforçou a sua fé em Deus? É sobre isso que iremos nos
debruçar nesta breve reflexão.
Para um entendimento mais
apurado sobre o tema é necessário examinarmos quais são as reais intepretações
dessas palavras (fé e prudência) e as suas aplicabilidades nas escrituras
sagradas. Vejamos:
A fé
John Wesley disse: “A fé cristã é, portanto, não só o
entendimento do evangelho de Cristo, mas também a plena confiança no sangue de
Cristo”. Wesley cria que mais do que ter o entendimento, a fé é uma confiança
gerada no coração pelo sangue de Jesus.
A palavra fé no Grego Koiné
é pistis e se traduz como fiel e no Latim é fides, seguindo a mesma lógica de
tradução. Em I Co. 1.9, o apóstolo Paulo diz que “Fiel é Deus...”, no original esta
frase se transcreve Pistos ho
Theòs estin; a palavra pistos vem da mesma raiz da palavra pistis, isto é, fazendo alusão a
ideia de fidelidade. Também podendo ser traduzida como confiar em Deus (bíblia Strong),
logo é entendido que a fé está diretamente ligada a Deus, em confiar e ser fiel
a Ele.
O capítulo 11 do livro aos
Hebreus traz um maior conteúdo da expressão fé e seus desdobramentos na vida de
tantos personagens bíblicos; e já no verso primeiro o autor traz a natureza da
fé dizendo: “Ora, a fé é a certeza de
coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”, isto é, quem
é fiel e confia em Deus tem a certeza do Seu domínio e está convicto de que,
mesmo não estando aparente, contudo Deus está realizando. As histórias contadas
nos versículos abaixo revelam o testemunho de fé de alguns homens e mulheres, e
todas essas experiências expressas nesta narrativa apontam a fidelidade em Deus
e a confiança nEle.
A fé será sempre uma
resposta a uma ação de graça do Eterno Deus. Wesley[1] disse: “O que
quer que um homem possa fazer pela sua salvação não é uma causa, mas o efeito
da graça. Deus é o gerador e causador de todo o bem que está no homem ou é
praticado por ele”, ou seja, a fé sempre aponta para a salvação de Deus
por meio da Sua Graça. Não se pode confundir a fé como uma ferramenta que
manipula a Deus para alcançarmos interesses pessoais, mesmo que ainda em Deus
sejamos agraciados por uma dádiva; lembremo-nos do que nos diz a oração do Pai
nosso: “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra
como no céu” (Mt.
6.10). Charles H. Spurgeon[2]
disse: “Minha fé não está firmada no que sou, nem no que devo ser, nem no que
sinto, nem no que sei, mas no que Cristo é, no que Ele fez e no que Ele está
fazendo por mim”.
A prudência
A prudência se traduz por
muitos significados, dentre eles a cautela, o equilíbrio, a moderação e a
precaução. Uma pessoa prudente revela em seu comportamento tais virtudes. Na bíblia
encontramos no fruto do Espírito (Gl. 5.22-23) sinônimos da prudência como:
longanimidade, mansidão e domínio próprio; isto prova que pelo Espírito Santo
adquirimos esses predicados.
Ser moderado é ser prudente
(Latim prudentia), é andar em
sobriedade. Na bíblia encontramos o apóstolo Pedro instruindo o povo em sua
epístola dizendo: “Sede sóbrios e
vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge
procurando alguém para devorar” (I Pe. 5.8). A orientação aponta para a
ideia de que há um objetivo muito claro do diabo em nos ceifar (Jo. 10.10a) e a
maneira pela qual ele atua exatamente em lugares que há fissuras; na medida em
que tais lugares estão “trincados”, vai permitir que o adversário insista com
seus golpes neste espaço vulnerável. É pertinente percebermos que a falta de
prudência torna-nos vulneráveis contra as ações do nosso adversário.
Uma pessoa prudente também é
uma pessoa precavida – quem se antecipa no preparo poderá ter as chances de
acertos aumentadas e consequentemente possibilidades de sucesso.
Jesus como modelo de fé e prudência
A fé se revela na práxis
cristã por meio da fidelidade e confiança que imprimimos a Deus. Jesus é a
prova plena desse modelo de fé, pois em seu ministério esta postura se fez
presente integralmente. Na tentação no deserto encontramos o Filho de Deus
sendo incitado ao erro pelo diabo e mesmo assim não sucumbiu diante das três
tentativas; e numa delas o Senhor nos ensina que prudência não anula a fé, pelo
contrário, elas caminham juntas. A resposta de Jesus ao diabo dizendo “Não ponha à prova o Senhor, seu Deus”
(Mt. 4.7) evidencia que a prudência se
revela na fidelidade, confiança e obediência ao Eterno Deus, isto é, fé e prudência
são inegociáveis para aqueles (as) que andam com Ele. A frustação do inimigo e
consequentemente a sua derrota é a prova de que, quem adota o estilo de vida do
Mestre está no caminho certo.
Conclusão
Avaliar para decidir é um
ato impresso por pessoas equilibradas, moderadas e precavidas. A fé quando se
conecta com a prudência permite-nos efetuar ações mais consistentes e menos
danosas. O diabo continua se utilizando das mesmas armas para nos instigar ao
erro e consequentemente a pecar contra Deus. A frase “jogue-se daqui”
contextualizada seria “você não tem fé?”, então não tema o
tiroteio, não use o cinto de segurança de seu carro, pois Deus irá te livrar!
Não podemos cair nessas
armadilhas do inimigo que são métodos utilizados por ele para matar, roubar e
destruir (Jo. 10.10a); ele continua usando desse mesmo “calibre”. Não se
aproprie das frases que só o diabo tem “direitos autorais” sobre elas.
Entregar a nossa vida a Deus
e confiar nesta entrega nos dará a certeza de que mesmo que esteja tudo fora do
nosso controle, contudo não estará fora do controle de Deus, pois o mais Ele
fará (Sl. 37.5). Não tente a Deus, tenha fé e seja prudente.
Pr. Rafael Pontes
[1] Um dos grandes avivalistas do séc.
XVIII. Nascido em Epworth na Inglaterra em 17 de junho de 1703, filho de Samuel
(pastor anglicano) e Suzana Wesley. Tornou-se fundador do movimento metodista
que “varreu” a Inglaterra com atitudes que trouxeram impacto na vida da massa
inglesa esquecida. Viveu uma experiência de fé em 24 de maio de 1738, experiência
esta que se tornou divisor de águas em seu ministério. Suas mensagens eram
banhadas de temas como a salvação pela fé, graça livre e etc. Construiu um
método eficaz de consolidação permitindo aos convertidos à condição de firmarem
seus passos. Faleceu em 02 de março de 1791 e sua última frase foi “o melhor de
tudo é que Deus está conosco”.

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